FRASE DO ANO...

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto...

sábado, 13 de abril de 2013

SÃO MUITAS E BELAS HISTÓRIAS DE UM ANJO QUE PASSOU PELA TERRA...

Depois que a ficha cai... Depois de todo o movimento, quando a gente pára e o cérebro começa a colocar em ordem os pensamentos, é que começa o verdadeiro TERREMOTO, anunciando que a saudade vai bater forte até o último instante da vida...
Por uns poucos momentos, vem a emoção, vem o choro compulsivo... A gente chora quietinho, até mesmo para ele não ouvir, mesmo porque, as tristezas dele, ele as guardava para si... Não compartilhava, para não afetar as vidas dos que o cercavam... Ele era assim mesmo... Carregava nas costas, sozinho, a cruz dos dissabores, o sofrimento dos menos favorecidos, a ânsia de poder livrar as dores de seus pacientes, amigos e familiares.
Era perfeito ? Não. Perfeito só Deus...
Tinha seus defeitos ? Claro. Todos nós os temos...
Entretanto, se me perguntarem um defeito dele, vou ter imensa dificuldade e não vou conseguir apontar nenhum...
Exatamente por isso, por outro lado do terremoto a que me referi, que trás a tristeza e o prenuncio de uma saudade eterna, há uma sensação de COMEMORAÇÃO...
Comemorar pelo orgulho e privilégio de ser filho... Comemorar por ter tido TODAS as LIÇÕES de SABEDORIA, de BONDADE, de HONESTIDADE, de LEALDADE à profissão e AMOR AO PRÓXIMO...
Nós, filhos e familiares, comunidade de uma cidade privilegiada, apesar da tristeza da ausência, podemos COMEMORAR SIM... Um anjo esteve entre nós, durante mais de meio século...
Muitos, especialmente os carentes, o reconheceram instantaneamente... Outros, demoraram um pouco, mas acabaram por aceitar,que, ali estava um HOMEM ESPECIAL...
Então, tudo acontece assim. De um lado a tristeza e a saudade da ausência, e outro a COMEMORAÇÃO por uma VIDA tão FASCINANTE...

Essa história começou lá pelos idos de 1919, quando um casal de imigrantes italianos escolheu ALFENAS para morada. Ela, dona de pensão para estudantes, Ele carpinteiro. Tiveram um casal de filhos. A menina faleceu de gripe espanhola. O menino, filho de carpinteiro, coincidência, crescia em sapiência e boa formação. Era sempre o primeiro das classes, pupilo do grande mestre Dr Roque Tamburini, seu afeto durante a vida toda. A vida não era fácil. Não havia riqueza, a não ser a presença constante de Deus e a vontade de vencer... Optou pela Medicina e seguiu para cursá-la na UFMG, em Belo Horizonte.... Sabia do esforço de seus pais e carregava lenha para ganhar algum trocado e ajudar nas despesas. Em BH, foi pupilo do saudoso Dr Borges da Costa. Seguiu seus passos e formou-se com méritos... Era hora de cair em campo... Sabia que seria uma peregrinação... Sabia das dificuldades do interior... Já como médico, tinha seus receios... Mesmo sem ser acometido por qualquer crise, operou o apêndice, para que esse mal não o acometesse na caminhada... E foi...

Soube que precisavam de médico numa cidadezinha do interior, Heliodora. E lá decidiu iniciar sua carreira...

Logo, a comunidade percebeu que ali estava um médico carismático...

Conheceu a família de um homem honrado e honesto, José Benedito de Paiva, e casou-se a primeira vez, com a filha deste, Bernadete.

Com ela, ainda em Heliodora, nasceu a primeira filha, Diumira, intensamente festejada...

Depois, a família do Sr José Benedito resolveu mudar-se para São Gonçalo do Sapucaí. E o médico carismático segue junto, para tristeza do povo heliodorense. Mas São Gonçalo não era tão longe assim. O médico continuava por perto e jamais deixou de atender qualquer chamado de alguém necessitado de Heliodora.

Em São Gonçalo do Sapucaí, nasceu o segundo filho, Donato, este que humildemente tenta transcrever essa história.

Nada era fácil..

Trouxe seus pais, Virgílio e Josefina, para morarem consigo...

A fatalidade tirou-lhe, precocemente, a companheira Bernadete, acometida de uma grave doença cardíaca...

A barra era pesada, mas a profissão de médico apostólico, o cumprimento do juramento de médico, falaram mais alto. E foi-se tornando conhecido, principalmente das famílias mais carentes. Não que as mais abastadas fosse esquecidas. O valor a vida humana era seu lema.

O tempo bom dos médicos de família. Inúmeras famílias.. Não vou citá-las agora, para não correr o risco de esquecimento...

Histórias fantásticas, que nem nós, mais próximos, tínhamos conhecimento:

O paciente entrava no consultório e logo dizia: "Dr, preciso consultar mas não tenho dinheiro para pagar a consulta..."

No que, ele respondia: "Viu alguma atendente aí na entrada ? Não ? Então não tem que pagar..."

Após a consulta: "Bom, se não tem dinheiro para a consulta, não vai ter para o remédio..."

E escrevia no verso da receita: "ESSE MEDICAMENTO É POR MINHA CONTA..."

Imagino que, Deus deve ter pensado: "Tirei-lhe a companheira. Ele não pode ficar sozinho, com filhos pequenos e cumprir a missão que lhe dei. Preciso dar-lhe uma companheira igual ou melhor que a que lhe tirei.."

Dito e feito. Numa história de amor digna dos maiores romances do cinema, começou a namorar Maria Teresa Rocha Almeida, filha de uma dos grandes homens da cidade, Sr César Sodré de Almeida, 15 anos mais nova, que era sua aluna no Ginásio, que também foi atraída pelo carisma dele...

Maria Teresa, como nos filmes, usou inúmeros artifícios para atraí-lo... e conseguiu...

Casaram-se. Pronto, Deus que havia fechado uma porta, abriu outra e reconstituiu a família.

Ser mulher de médico, não é fácil... Ser mulher de médico carismático, menos ainda...

Mas havia um projeto designado por Deus, e Maria Teresa aderiu e foi um baluarte, para que a missão santa fosse realizada...

Não perdeu por isso o apoio irrestrito da família do Sr José Benedito..


Maria Teresa foi reconhecida como necessária e aceita como filha e irmã...


Mas haviam tropeços... pedras no caminho...

Como aquela em que atestou a incapacidade mental do filho de um amigo para servir o exército...

As autoridades militares desconfiaram de protecionismo. Auditorias foram determinadas. Quase lhe caçaram  o título de médico... Fase difícil... Muita depressão e decepção... Entretanto a mão de Deus estava com ele. Constatada a veracidade da incapacidade, as autoridades se retrataram e fizeram questão de ir até nossa casa para pedir-lhe desculpas..

Como era despojado de vaidade, seguiu a vida com normalidade, não festejou o episódio...

Tinha uns repentes fantásticos...

Uma vez, tirou-me da cama, as 10 da manhã (jovem dormia até tarde): "Vamos ali comigo"..

Levou-me ao alto da Aparecida, não me lembro em que casa: "Vou lhe apresentar a pobreza"...

Mostrou me a casa, chão de terra batida, úmida; camas de papelão molhado, coberta feitas com jornal velho... banheiro idem, com fossas cavadas, sem descargas...

A festa com que foi recebido me emocionou. 
Naquele instante, ele lapidava um pouco mais a minha formação...
Assim eram suas lições de vida...

E assim transcorria a vida com ele...

Ao contrário do que muitos pensavam, não havia pujança na nossa mesa... Havia amor... Um frango, hortaliças enviados por pacientes em reconhecimento a não cobranças de consultas ou visitas..

Nunca nos faltou nada... O que ele doava aos necessitados não nos fazia falta. Crescemos sadios com o que tínhamos...

Estávamos embutidos na vida dele... Tínhamos participação ativa... Até nas madrugadas quando pacientes desesperados esmurravam o portão... 

"Dr Pierini... Dr Pierini... Ajuda aqui... Minha mulher está passando mal..."

Isso era uma noite sim e a outra também....

As vezes, o desespero... Um paciente no consultório ferido com um machado e perdendo muito sangue e a esposa na cama, no primeiro aborto (foram 15), também perdendo muito sangue... não sabia a quem atender, até que ajuda dos amigos ( e de Deus), levaram a esposa para o hospital.
Ele pode atender devidamente o paciente e seguir em seguida para acompanhar sua amada... 

Haviam passagens que eu achava hilárias...


Ele havia me ensinado a jogar xadrez. Em pouco tempo já não me vencia mais...


Num torneio realizado na cidade, eu não tinha mais chances e ele tinha que me vencer para continuar tendo suas chances...


Jogamos. Eu venci, claro...


Na volta para casa ele esboçou um descontentamento: "você é bobo mesmo... " 


E parou imediatamente. Percebeu que se  eu o deixasse ganhar, seria desonesto.


E não era isso que me ensinava...


Botou a mão no meu ombro e corrigiu: "Você está jogando muito... "


Depois disso, Diumira se casou e foi para longe; eu fui estudar fora, formei-me, constituiu família e fui trabalhar distante também...


Ganhou um genro, Meiry e uma nora, Maria do Carmo, neta do colega Dr Antenor de Lemos


Fez-se presente, em Maringá, Londrina, com Maria Teresa, nos partos de Diumira, quando nasceram os primeiros netos Solano e Joanice.


Como esteve ao lado do Dr Celso Ayres nos partos de Maria do Carmo, quando nasceram Virgínia, Rafhael, Renatha e Marina.


O desejo dos dois em ter um filho era sempre brecado por abortos (foram 15)...


Não se descobria a causa...


Mas Deus, deve ter pensado (de novo): "Preciso conceder um filho a esses dois amados..."


Não antes sem levar para Si o Pai, Virgílio...


E exatamente quando ele tinha de ser operado em Belo Horizonte, e ela estava grávida de novo (eles não evitavam), que, no Hospital Felício Roxo, a equipe do Dr Claudio Oliveira, detectou que havia uma diabete gravídica.


Tratada devidamente,  nasceu Benedicto José... Uma festa... Uma dádiva...


Mais novo que seus sobrinhos Solano e Virgínia, Benedicto, hoje é médico, com o coração idêntico ao do Pai... É o orgulho de toda família, pela formação, pela seriedade e pela obstinação...


E foi ao lado do filho, ainda não formado, que viu a mãe Josefina partir.


Casou-se também, Benedicto e ele ganhou mais uma nora, Adriana, neta de uma boa pessoa, conhecida de todos: Sr José Gonçalves (Zé I love you)


Nessa alturas, já não clinicava mais. A idade era uma realidade. A cabeça já não funciona muito bem. A missão, então, era transferir a formação para o filho médico.


Talvez, por isso, a fatalidade do falecimento da neta Joanice não tenha sido bem entendida...


Daí para frente, a idade ia mostrando a decadência física e mental...


Sempre assistido com competência pelo filho médico, foi até onde Deus permitiu... cantando sempre. 


Dia 10 de abril de 2013, as 13:30 horas, parou de respirar e partiu para a Casa do Pai....




NOTAS COMPLEMENTARES A SEREM INSERIDAS: (e tantas outras que irão aparecer, contadas pelos pacientes e amigos)



Tinha inúmeros amigos, QUATRO ESPECIAIS:


Dr Hélio Nogueira, Dr Hervê de Campos Vargas, Dr Enéas Miserani e Dr Roberto Magalhães


Sentiu muito a perda de todos eles...



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Tinha uma PAIXÃO: ROTARY CLUBE


onde foi atuante enquanto a idade permitiu...


Era um golpe terrível, para ele, cada vez que um companheiro partia dessa vida...



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Foi candidato a Prefeito em 1988


Ligou-me, feliz, comunicando a decisão...


E feliz por ter o José Ibrahim, como companheiro de chapa. 


Tenho juventude e competência como apoio, ele realçava essa idéia...




A intenção não era politiqueira...Como sempre era a de SERVIR...


Foi pouco entendido... PERDEU.... por incrível que possa parecer...




Nós, familiares, na verdade, não o queríamos Prefeito. 

Por isso a escolha do José Ibrahim foi festejada... Seria o apoio necessário...

Na verdade, só queríamos que ele recebesse  o reconhecimento da população com uma votação maciça...


Não demorou nem 24 horas para ele assimilar o golpe...


Na manhã seguinte, as 8, estava atendendo em seu consultório como sempre fez...


Ele sabia que política é isso e como era despojado de vaidade, seguiu em frente...


Na verdade, a comunidade foi quem perdeu a oportunidade de prestar uma homenagem a quem lhe serviu durante 50 anos..... FAZ PARTE....



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TINHA UM VERDADEIRO PARCEIRO, AMIGO DE ALMA TÃO GENEROSA QUANTO...
(no caso das RECEITAS MÉDICAS que iam com recado no verso:)

O Saudoso Sr EDGAR GOMES, nem sempre jogava tudo na conta dele... Dividia as despesas...


Deus proteja o Sr EDGAR... Parceiro de ANJO, ANJO é...

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OUTRA PAIXÃO: O POSTO DE SAÚDE...

Amparado pelos amigos, Albercino Novaes, Geraldo Gastão, Isaura Mosti, Maricota, Celina Delfino, Maria Helena Rodrigues, Nelson Conterno, Nilton Ramalho (que para nossa satisfação veio dar adeus ao chefe amigo...), Dr Celso. Será que esqueci alguém ?

Fazia dali o seu sacerdócio... Era onde mais podia auxiliar os semelhantes mais necessitados.

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QUATRO PESSOAS ESPECIAIS QUE GOSTAVAM TANTO DELE(gostam), QUE SOBRA um pouquinho para nós:

Isaura Mosti, Laurinha Brandão, Beth Junho e Abigail Valias. Nossos agradecimentos... Considero-as verdadeiras irmãs... Amamos muito...

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COMPANHEIRO de início de carreira que o levava a todo canto para atender os necessitados:

SR OSÓRIO AVELAR
(Por conta disso, o Sebastião Avelar passou conosco toda a madrugada, velando-o)

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COMPANHEIROS DAS MESAS DE JOGO (onde ele fazia higiene mental necessária)

PRUDENTE, PAULINHO VALIAS, JUAREZ AZZI, HIROITO CÂNDIDO, JADIR RIBEIRO...

Obs: PRUDENTE passou a madrugada conosco ( por paixão e por ordem da Isaura)...

Quase esqueci do SÔ NHOZINHO que o adorava como seu Deus...



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ELE ADOTOU COMO FILHOS...

JOSÉ VITOR , HELIÁ e filhos (presentes nas horas boas e nas difíceis)

Mais recentemente, a GRACIELLE, que cuidou dele até o fim como filha realmente 
(e sua filhinha Stefanie, que o alegrava)


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Os familiares de Bernadete, que são nossos familiares biológicos, que puderam, estiveram presentes conosco no momento complicado...

Tia Isa, uma reserva moral, fez a ligação com Deus... sabia o que ele representava, para nós, seus sobrinhos

Tio Renato, de improviso, fez a última e linda homenagem.... que pena que não foi gravada


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Os familiares de Maria Teresa, também, nossos familiares adotivos, se fizeram presentes. 
O sempre prestativo José Ivan de Carvalho e seu filho Sávio e o Flávio, da D.Rita, passaram a madrugada conosco, numa solidariedade reconhecida.

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O PIEDADE FC...

Adorava um futebol... Muitos amigos  no Praião... Os Carimbás e os Campos... Zé Braza, Teteu, Amadeu Batagini, eram alguns companheiros de time..

Mais passagens hilárias, sempre contadas  pelo amigo Jefferson Ibrahim:


As torcidas da Dona Pina para o seu Dito: "Estica Dito", e o Dito disparava de cabeça baixa, pela ponta direita...



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O CORAL "MATER AMABILIS"...

A música sempre foi uma de suas paixões... cantava e cantava...

Tinha um violino, achado no lixo e restaurado pelo pai Sr Virgílio.

Há pouco tempo atrás, mostramos lhe o violino, com ele já de cama...

"Não sabia que tinha isso". Pegou o violino, deitado e arriscou algo, que gravamos e  batizamos como "a música mais bonita do mundo..."

Era o xodó do Saudoso Cônego Arnaldo, que sabia, como homem de Deus, que naquele homem havia um desígnio especial do Criador...

Sofreu muito na morte do Cônego, pois ao atendê-lo percebeu que o infarto era maciço...

Cônego Arnaldo também percebeu que estava partindo e tirou do braço seu relógio de pulso e ofereceu a ele, talvez como lembrança. Ele preferiu devolver o relógio às irmãs do falecido...


AS PESCARIAS:

Adorava pescar. Desde os tempos do Catirina até há não muito tempo com o Zé Vitor... Era uma verdadeira higiene mental na sua carreira de médico...



(continua...)

Um comentário:

  1. Bela homenagem para um homem que com gestos regados de humanidade e sabedoria escreveu sua Historia!
    Descanse em paz, amigo querido!

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